quarta-feira, 4 de abril de 2012

A REALIDADE COMO É

Quem espera que a vida seja feita de ilusão, pode até ficar maluco ou morrer na solidão.
É preciso ter cuidado pra mais tarde não sofrer, é preciso saber viver.
Toda pedra do caminho, você pode retirar, numa flor que tem espinhos você pode se arranhar, se o bem e o mal existem, você pode escolher, é preciso saber viver

(Roberto Carlos)


Não sou budista, mas em meus estudo sobre psicologia descobri alguns aspectos interessantes da doutrina budista em relação à saúde mental e o modo correto de se observar a vida. Vou postar alguns trechos e em seguida tecer alguns comentários a respeito.

"O Budismo consiste no ensinamento de como superar o sofrimento e atingir o nirvana (estado total de paz e plenitude) por meio da disciplina mental e de uma forma correta de vida. Também creêm na lei do carma, segundo a qual, as ações de uma pessoa determinam sua condição na vida futura. A doutrina é baseada nas Quatro Grandes Verdades de Buda:

1 - A existência implica a dor -- O nascimento, a idade, a morte e os desejos são sofrimentos.

2 - A origem da dor é o desejo e o afeto -- As pessoas buscam prazeres que não duram muito tempo e buscam alegria que leva a mais sofrimento.
3 - O fim da dor -- só é possível com o fim do desejo.
4 - A Quarta Verdade -- se prega que a superação da dor só pode ser alcançada através de oito passos:

1 - Compreensão correta: a pessoa deve aceitar as Quatro Verdades e os oito passos de Buda.
2 - Pensamento correto: A pessoa deve renunciar todo prazer através dos sentidos e o pensamento mal.
3 - Linguagem correta: A pessoa não deve mentir, enganar ou abusar de ninguém.
4 - Comportamento correto: A pessoa não deve destruir nenhuma criatura, ou cometer atos ilegais.
5 - Modo de vida correto: O modo de vida não deve trazer prejuízo a nada ou a ninguém.
6 - Esforço correto: A pessoa deve evitar qualquer mal hábito e desfazer de qualquer um que o possua.
7 - Desígnio correto: A pessoa deve observar, estar alerta, livre de desejo e da dor.
8 - Meditação correta: Ao abandonar todos os prazeres sensuais, as más qualidades, alegrias e dores, a pessoa deve entrar nos quatro gráus da meditação, que são produzidos pela concentração.

1 - A existência implica a dor - Nada mais correto e conforme com a realidade... Infelizmente a dor é o mecanismo de evolução da vida. A maior causa de transtornos mentais, depressões, doenças psicossomáticas são causadas pela incapacidade da pessoa de lidar com as dores e com o sofrimento. Quando a dor bate à porta, costumamos fugir ou para as drogas, ou mesmo para as defesas conscientes e inconscientes que nosso ego cria por não suportar o peso da realidade.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

CIÊNCIA E RELIGIÃO PODEM ANDAR JUNTAS? - DEBATE RODOLFO RANGEL X FELIPE MUNHOZ - PARTE 3



RÉPLICA - RODOLFO RANGEL


BOM

Tal qual Jack estripador, vamos por partes:

(...) Mas então, o qual é o mérito em simplesmente “acreditar” em alguma coisa?
Nenhum. Crianças acreditam em papai Noel, tem gente que acredita em saci-pererê (...)

Partamos de uma premissa básica: A verdade absoluta é inalcançável em nosso atual estágio evolutivo. Daí se pode concluir que: se torna precipitado tanto o ateu em crer o fim do corpo orgânico como o final de tudo sem ter outra prova além da decomposição corporal, sendo que não temos ainda provas concretas de onde se localiza a sede da consciência (como já muito discutido) e também se precipita o religioso que afirma possuir um projeto de imortalidade, e mais, a salvação eterna!

Você poderia me perguntar então qual a medida mais sensata para a resolução desse paradoxo, já que por um lado não possuímos a verdade absoluta e por outro, como você mesmo disse, a crença desmedida em coisas fora da realidade podem ser tão prejudiciais a sociedade? Sua resposta pelo que já conversamos seria com certeza a ciência como base de observação e a humildade do espírito científico através do princípio da falseabilidade e humildade de manter-se sempre fiel a dúvida pra evolução. Porém como você e eu dissemos em comum acordo mesmo dentro de um corpo científico há divergência de pensamento entre os adeptos, por fatores culturais, ambientais, hereditários, etc. A resposta está justamente na delimitação do que é aceitável para a sociedade e do que é prejudicial tanto para a mesma quanto para o indivíduo. Assim há a possibilidade de uma diversidade de crenças individuais, desde que não sejam prejudiciais para a sociedade nem para o próprio indivíduo. Se alguém acredita em papai Noel e essa crença não lhe trás prejuízo não teríamos problema, mas sim quando vemos psicóticos ou fanáticos praticando atentados e matando pessoas. Essa delimitação como sabemos é feita de vários modos, tais como as leis, as definições de saúde e patologia, etc. Portanto já temos uma união, pelo menos na teoria, entre ciência e as várias religiões e doutrinas existentes... Infelizmente há uma grande parte dos adeptos que não enxerga isso e não respeita a crença pessoal de cada um como o amigo mesmo frisou.

(...) Para que o senso de realidade de um seja verdadeiro, o senso de realidade do outro tem que ser falso, mesmo que ambas as formas de interpretar a realidade sejam embasadas justamente nas mesmas premissas.(...)

Discordo do amigo, pois variadas podem ser as formas de se observar a mesma realidade, citando Einstein: “Todo ponto de vista não é nada mais do que a vista de certo ponto.” Creio que os argumentos acima já demonstram o mencionado e como é possível coabitarem variados sensos de realidade num mesmo lugar, desde que pautados pelo respeito mútuo e não com tentativas de imposição como vemos muitos fazerem.

(...) Quando se defende sua religião, o que está em jogo não é somente sua forma de ver o mundo ou de se comportar. É o sentido de sua existência. E o seu PROJETO DE IMORTALIDADE. (...)

Concordo quanto a imortalidade da consciência ser a premissa básica de toda religião, mas daí a afirmar que todas as pessoas o são por simplesmente terem medo da morte e procurarem um conforto na imortalidade já é outra história. Se analisarmos a questão por esse prisma veremos uma precipitação também no ateu de aceitar sem provas que a morte é o fim simplesmente por ser o fim do corpo somático. Apesar de muitas serem as evidências, não existe prova definitiva da inexistência de outras dimensões.

(...) Se o termo “espiritualidade” está relacionado a tudo aquilo que não é ligado à matéria, mas ao significado de toda a existência, que pode ser “experimentado” pela consciência humana, então a discussão é muito mais ampla.(...)

Talvez eu tenha conseguido realmente o que mais procurava... A autonomia emocional e moral quanto a essas questões, pois não consigo nem conceber mais querer empurrar goela abaixo de alguém uma verdade minha só por orgulho ou sei lá o que. Com toda certeza do mundo, pelo menos eu não concebo mais uma religião como única base de moral ou mesmo de explicação para questões metafísicas, pois como já dito nas considerações iniciais já foi mais que provado que concepções humanas são expressões possivelmente falhas em algum ponto inexplorado.
Quanto ao termo espiritualidade com certeza estamos nos referindo ao significado de toda existência que pode ou NÃO pode ser experimentada pelo ser humano. Tanto que a percepção extra-sensorial, a mediunidade em especial é alicerçada no conceito de matéria escura, ao se afirmar que o ser humano possui em sua própria composição corporal além da matéria “clara” visível por nossos instrumentos por refletir a luz, também a matéria escura que não reflete a luz, e dentro dessa concepção estaria o fenômeno mediúnico na transmissão das mesmas energias ao aparelho receptor do médium. Infelizmente, porém essa é uma das limitações que hoje enfrentamos com nossa aparelhagem científica e que esperamos seja superada em breve. Enquanto essa questão não se resolve as seitas espiritualistas têm a sua certeza com a prática... seja ela enganosa ou verdadeira, e creio que isso seja aceitável desde que seja respeitada a crença de cada um.

Bom, por enquanto é isso!
Abraço!

CIÊNCIA E RELIGIÃO PODEM ANDAR JUNTAS? DUELO RODOLFO RANGEL X FELIPE MUNHOZ - PARTE 2



CONSIDERAÇÕES INICIAIS - FELIPE MUNHOZ


Saudações, brother!

É muito bom relembrar nossas conversas. Eu refleti muito sobre todos os seus argumentos e sobre a forma como você enxerga a realidade e isso me ajudou muito a guiar uma série de decisões minhas, com relação à forma como vejo o mundo hoje. Ainda tenho a literatura que você me indicou e conheço bem várias das concepções que você acredita. O fato de você poder trazer literatura da sua área para o debate vai enriquecer muito a discussão. Já que somos amigos, vou aproveitar para ser totalmente honesto contigo e inclusive te apresentar uma visão um tanto provocativa, e espero que veja com bons olhos o tom reflexivo do nosso diálogo. Eu vou começar minha introdução tratando do tema pelo lado filosófico, depois discutirei mais a questão psicológica e neurológica, que você começou a discutir em sua introdução.

Quais conseqüências da visão religiosa para a sociedade?

Em outras palavras, quais as conseqüências daquilo que se acredita?

Todas. Em última instância, o senso de realidade de um ser humano é formado com base naquilo que ele acredita. As pessoas podem acreditar em coisas que podem ter efeito benéfico nas relações sociais, assim como podem acreditar nas besteiras mais absurdas e até em coisas que podem destruir as sociedades, da forma como as conhecemos.

Mas então, o qual é o mérito em simplesmente “acreditar” em alguma coisa?
Nenhum. Crianças acreditam em papai Noel, tem gente que acredita em saci-pererê, tem quem jura que foi abduzido por extra-terrestres. Acreditar, por acreditar, não é mérito algum. Aliás, não é muito difícil fazer as pessoas acreditarem em algo que não é verdade. E fazê-las fazer as coisas mais horríveis por causa disto.

Entretanto, todo mundo sabe que é imprescindível que se acredite em algo, seja lá o que for. Isto é mais do que senso comum, é lógica pura. Para não se acreditar em nada é necessário acreditar em sua própria descrença. rsss

Mas a questão é: Quando não se tem resposta alguma, uma resposta ruim é melhor do que resposta nenhuma. Baseado nesta máxima, o ser humano começou o seu processo de investigação da natureza e a primeira forma de tentar explicar os fenômenos da natureza foi através do raciocínio mítico.

E segundo esta forma de analisar a natureza, a realidade pode ter as formas mais estranhas possíveis, na mente das pessoas que acreditam. Quando se analisa o fenômeno religioso, é importante que se analise as diferentes manifestações do mesmo, que vão muito além da missa de domingo.

Por isto, esta questão toda, sempre terá duas formas de ser analisada. A ótica de quem acredita, que é auto-referente. E a ótica de quem não acredita. Mas mesmo entre os religiosos, não existe consenso.

Para que o senso de realidade de um seja verdadeiro, o senso de realidade do outro tem que ser falso, mesmo que ambas as formas de interpretar a realidade sejam embasadas justamente nas mesmas premissas.

Por isto, todo debate sobre religião sempre chega a um ponto sem saída para quem defende as religiões. Se a forma de interpretar o mundo da (minha) religião é correto, logo todas as outras religiões que dizem coisas diferentes estão erradas. Para que a crença seja efetiva, ela deve ser exclusiva. Alguém que acredita no Deus cristão, mas que presta culto a Shiva, com certeza será censurado pelos outros cristãos.

Entretanto, quem acredita no Deus cristão, o faz pelos mesmos motivos daqueles que acreditam em Shiva: Por que foram educados para isto, afinal de contas, ninguém nasce acreditando em Deus, seja ele Shiva, seja ele Jeová .

Mas o que pode fazer uma pessoa ter a pretensão de achar que seu senso de realidade é mais preciso que o de outro, que usa as mesmas “técnicas”? Simples. A defesa de seu projeto de imortalidade.

Quando se defende sua religião, o que está em jogo não é somente sua forma de ver o mundo ou de se comportar. É o sentido de sua existência. E o seu PROJETO DE IMORTALIDADE. Por isto, é que este tipo de debate é sempre tão caloroso. É difícil para as pessoas serem totalmente racionais com uma questão que meche com instintos tão primitivos quanto o da própria sobrevivência. Acreditar em vida eterna é a melhor forma de encontrar conforto, quando a alternativa é que sua consciência simplesmente deixará de existir.

- Cartilhas básicas de como se viver a vida: O método didático é bem simples. Cumpra a regra de ouro (não faça para o próximo o que não gostaria que fizessem para você) e receberá reforço positivo (salvação). Não faça e receberá reforço negativo (danação).
E claro que o reforço negativo acaba sempre falando mais alto e o medo normalmente impede as pessoas de fazerem algo muito horrível, sob pena da destruição total e absoluta de sua suposta imortalidade.

– O maior prêmio possível . Sua própria existência. Segundo a própria religião, ela mesma é o caminho da imortalidade.

E para isto tudo, você só tem que abdicar de uma coisa: Suas competências questionadoras, pois para experimentar o senso de realidade, tal como é sugerido pela experiência religiosa, é necessário, em determinado instante, deixar de fazer perguntas e aceitar as coisas exatamente do jeito que te disseram que elas são.

Se o termo “espiritualidade” está relacionado a tudo aquilo que não é ligado à matéria, mas ao significado de toda a existência, que pode ser “experimentado” pela consciência humana, então a discussão é muito mais ampla.

E não é só a religião que traz respostas para estas questões metafísicas. E também não é o “único alicerce de moralidade” que existe, muito pelo contrário. A religião pode inspirar muitas atitudes que contemplem a regra de ouro, anteriormente citada, mas também pode inspirar várias atitudes que são totalmente contrárias a esta regra.

No fim das contas, o grande problema, a meu ver, é que é muito difícil para o religioso enxergar esta diferença quando está violando a regra de ouro e não percebe, por acreditar estar defendendo “um bem maior”. E isto pode acontecer em qualquer religião.

Por isto, sob minha ótica, alguém que aceita enxergar o mundo desta maneira, simplesmente desistiu de continuar fazendo perguntas. E isto é péssimo para o mundo.

CIÊNCIA E RELIGIÃO PODEM ANDAR JUNTAS? DUELO RODOLFO RANGEL X FELIPE MUNHOZ - PARTE 1



CONSIDERAÇÕES INICIAIS (RODOLFO)


Meu caro amigo.
Há não muito tempo discutíamos este mesmo tema sob dois prismas diferentes e não convergentes; talvez por falta de entendimento do que cada um expunha ou mesmo por falta de experiências vividas.
Hoje, após algum tempo passado e com meu ingresso no curso de psicologia alguns posicionamentos meus mudaram, outros se fortaleceram e outros ainda me são novos, por isso será um prazer atualizarmos nossas idéias como antes fazíamos durante horas, mesmo num sábado a noite.

A primeira idéia que hoje vejo sob outro ângulo é a de que discutíamos se a ciência e a religião poderiam andar juntas – segundo o entendimento científico – (pelo menos no meu entendimento era o discutido...) em resumo: se poderia haver uma religião científica ou uma ciência religiosa! Hoje vejo porque não tivemos grandes resultados, pois nenhum dos dois lados da moeda não se propõe a esse papel, mesmo o espiritismo tendo em seu corpo doutrinário algumas conclusões de cunho científico, seu foco não é essa discussão e nem essa prova. E consigo conceber também que a ciência apesar de ter surgido da negação do miraculoso, para gerar resultados palpáveis e satisfatórios para o bem estar da humanidade, hoje já concebo a ciência em seu próprio papel, não mais de oposição ao fantástico e sobrenatural, mas sim daquela que busca resultados concretos.

Não creio, porém, que seja interessante discutirmos sobre se o aspecto moral poderia ser um elo entre as duas disciplinas, pois o fator moral também é visto sob muitos prismas, chegando mesmo a não haver possibilidades de chegamos a um consenso em tão breves linhas disponíveis...

Apesar de continuar adepto da doutrina espírita, hoje me posiciono sob a visão da ciência psicológica de entendimento do ser humano e suas diversas manifestações. Já explico!
Desde que Freud desenvolveu a Psicanálise livrando muitos pacientes histéricos de serem exorcizados pela igreja como possuídos pelo demônio (http://www.youtube.com/watch?v=dZ0Qw48PWgo) , abriu-se um novo caminho de entendimento do funcionamento psíquico humano... Temos a prova empírica e clínica de que as concepções de mundo de cada indivíduo são únicas (e isso inclui moral, religião, etc.) mesmo dentro de um determinado grupo de mesmas ideologias. (1) Cada situação de valor emocional é para o indivíduo a formação de um caminho neuronal que desencadeia a maneira de uma corrente elétrica, um circuito único, próprio e resistente a mudanças fáceis... Quando essas correntes neuronais são formadas de um modo impróprio podemos afirmar que o indivíduo é um escravo de si mesmo, já que não são fáceis de reestruturarem. Com isso quero apenas dizer que do ponto de vista psicológico a sanidade mental é quando o ser vive pleno de suas convicções, sejam quais forem, pois a dúvida por si mesma dos seus ideais gera a sensação de desprazer devida à desestruturação de uma personalidade que demorou anos a ser construída, e com isso voltamos ao velho dilema da verdade absoluta... Será possível encontrá-la? A questão continua, pois ainda somos limitados mesmo com nossas ferramentas de investigação (ciência), pois vemos na fenomenologia o questionamento de que a ciência empírica não leva em conta a subjetividade do sujeito, e a subjetividade por si só é alguma coisa... (2) 

Se levarmos em conta o posicionamento deslocado da psicologia (como ciência) em relação às concepções e crenças do sujeito, incluindo as religiões, assim como todo e qualquer corpo doutrinário teórico como manifestações adquiridas e que contribuem para o funcionamento psíquico normal do cidadão, confortando-o nas situações difíceis e formando uma matriz psicológica de observação da realidade poderemos conceber um elo entre a religião e a ciência.

Bom, essas são minhas considerações iniciais. Grande abraço

(1) FREUD, Sigmund. Publicações pré-psicanalíticas e esboços inéditos (1886-1889). Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Vol. 1. Rio de Janeiro: IMAGO. 1996
(2) FENOMENOLOGIA. http://pt.wikipedia.org/wiki/Fenomenologia. Acessado em 23/01/2012 às 17:54.