CONSIDERAÇÕES INICIAIS - FELIPE MUNHOZ
Saudações, brother!
É muito bom relembrar nossas conversas. Eu refleti muito sobre todos os seus argumentos e sobre a forma como você enxerga a realidade e isso me ajudou muito a guiar uma série de decisões minhas, com relação à forma como vejo o mundo hoje. Ainda tenho a literatura que você me indicou e conheço bem várias das concepções que você acredita. O fato de você poder trazer literatura da sua área para o debate vai enriquecer muito a discussão. Já que somos amigos, vou aproveitar para ser totalmente honesto contigo e inclusive te apresentar uma visão um tanto provocativa, e espero que veja com bons olhos o tom reflexivo do nosso diálogo. Eu vou começar minha introdução tratando do tema pelo lado filosófico, depois discutirei mais a questão psicológica e neurológica, que você começou a discutir em sua introdução.
Quais conseqüências da visão religiosa para a sociedade?
Em outras palavras, quais as conseqüências daquilo que se acredita?
Todas. Em última instância, o senso de realidade de um ser humano é formado com base naquilo que ele acredita. As pessoas podem acreditar em coisas que podem ter efeito benéfico nas relações sociais, assim como podem acreditar nas besteiras mais absurdas e até em coisas que podem destruir as sociedades, da forma como as conhecemos.
Mas então, o qual é o mérito em simplesmente “acreditar” em alguma coisa?
Nenhum. Crianças acreditam em papai Noel, tem gente que acredita em saci-pererê, tem quem jura que foi abduzido por extra-terrestres. Acreditar, por acreditar, não é mérito algum. Aliás, não é muito difícil fazer as pessoas acreditarem em algo que não é verdade. E fazê-las fazer as coisas mais horríveis por causa disto.
Entretanto, todo mundo sabe que é imprescindível que se acredite em algo, seja lá o que for. Isto é mais do que senso comum, é lógica pura. Para não se acreditar em nada é necessário acreditar em sua própria descrença. rsss
Mas a questão é: Quando não se tem resposta alguma, uma resposta ruim é melhor do que resposta nenhuma. Baseado nesta máxima, o ser humano começou o seu processo de investigação da natureza e a primeira forma de tentar explicar os fenômenos da natureza foi através do raciocínio mítico.
E segundo esta forma de analisar a natureza, a realidade pode ter as formas mais estranhas possíveis, na mente das pessoas que acreditam. Quando se analisa o fenômeno religioso, é importante que se analise as diferentes manifestações do mesmo, que vão muito além da missa de domingo.
Por isto, esta questão toda, sempre terá duas formas de ser analisada. A ótica de quem acredita, que é auto-referente. E a ótica de quem não acredita. Mas mesmo entre os religiosos, não existe consenso.
Para que o senso de realidade de um seja verdadeiro, o senso de realidade do outro tem que ser falso, mesmo que ambas as formas de interpretar a realidade sejam embasadas justamente nas mesmas premissas.
Por isto, todo debate sobre religião sempre chega a um ponto sem saída para quem defende as religiões. Se a forma de interpretar o mundo da (minha) religião é correto, logo todas as outras religiões que dizem coisas diferentes estão erradas. Para que a crença seja efetiva, ela deve ser exclusiva. Alguém que acredita no Deus cristão, mas que presta culto a Shiva, com certeza será censurado pelos outros cristãos.
Entretanto, quem acredita no Deus cristão, o faz pelos mesmos motivos daqueles que acreditam em Shiva: Por que foram educados para isto, afinal de contas, ninguém nasce acreditando em Deus, seja ele Shiva, seja ele Jeová .
Mas o que pode fazer uma pessoa ter a pretensão de achar que seu senso de realidade é mais preciso que o de outro, que usa as mesmas “técnicas”? Simples. A defesa de seu projeto de imortalidade.
Quando se defende sua religião, o que está em jogo não é somente sua forma de ver o mundo ou de se comportar. É o sentido de sua existência. E o seu PROJETO DE IMORTALIDADE. Por isto, é que este tipo de debate é sempre tão caloroso. É difícil para as pessoas serem totalmente racionais com uma questão que meche com instintos tão primitivos quanto o da própria sobrevivência. Acreditar em vida eterna é a melhor forma de encontrar conforto, quando a alternativa é que sua consciência simplesmente deixará de existir.
- Cartilhas básicas de como se viver a vida: O método didático é bem simples. Cumpra a regra de ouro (não faça para o próximo o que não gostaria que fizessem para você) e receberá reforço positivo (salvação). Não faça e receberá reforço negativo (danação).
E claro que o reforço negativo acaba sempre falando mais alto e o medo normalmente impede as pessoas de fazerem algo muito horrível, sob pena da destruição total e absoluta de sua suposta imortalidade.
– O maior prêmio possível . Sua própria existência. Segundo a própria religião, ela mesma é o caminho da imortalidade.
E para isto tudo, você só tem que abdicar de uma coisa: Suas competências questionadoras, pois para experimentar o senso de realidade, tal como é sugerido pela experiência religiosa, é necessário, em determinado instante, deixar de fazer perguntas e aceitar as coisas exatamente do jeito que te disseram que elas são.
Se o termo “espiritualidade” está relacionado a tudo aquilo que não é ligado à matéria, mas ao significado de toda a existência, que pode ser “experimentado” pela consciência humana, então a discussão é muito mais ampla.
E não é só a religião que traz respostas para estas questões metafísicas. E também não é o “único alicerce de moralidade” que existe, muito pelo contrário. A religião pode inspirar muitas atitudes que contemplem a regra de ouro, anteriormente citada, mas também pode inspirar várias atitudes que são totalmente contrárias a esta regra.
No fim das contas, o grande problema, a meu ver, é que é muito difícil para o religioso enxergar esta diferença quando está violando a regra de ouro e não percebe, por acreditar estar defendendo “um bem maior”. E isto pode acontecer em qualquer religião.
Por isto, sob minha ótica, alguém que aceita enxergar o mundo desta maneira, simplesmente desistiu de continuar fazendo perguntas. E isto é péssimo para o mundo.

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